Gabinete Poético
teatro de objetos/ teatro de sombras/ música ao vivo/ poesia
Estás num espaço íntimo, começa o ritual poético. Um cara a cara com o ator/músico/manipulador. Uma experiência interativa para um único espectador que explora o imaginário criativo do visitante, utilizando-o para construir uma peça única através do jogo com o teatro de objetos, as sombras, a poesia e a música
Imagina que assistes a um espetáculo sem saber muito bem o que você vais encontrar. Quando chegas ao local, és dirigido para um canto escuro. Recebem-te com um acordeão e a partir daí será pedido que escolhas objetos, que lhes dês nomes, que toques uma caixa musical…
As tuas decisões serão as que configurarão este espetáculo de poesia, teatro de sombras, música e improvisação.
DURAÇÃO:10 min M/3

Entrevista
O que acontece em Gabinete Poético?
Após uma breve introdução musical que estabelece as regras do jogo, o espectador escolhe três objetos antigos de dentro da mala. Em seguida, atribui a cada objeto um novo significado, de forma aleatória (nem demasiado óbvio nem demasiado pessoal), colocando-os depois num ponto específico dentro da mala. O ator utiliza essa composição para criar um poema em menos de um minuto, entrelaçando os duplos sentidos propostos pelos objetos e pelo próprio espectador.
De seguida, a mala roda e uma pequena porta oculta abre-se, revelando um improvisado ecrã de sombras. Os objetos são projetados em movimento através de duas fontes de luz: uma livre e outra acoplada ao fole do acordeão. Enquanto o acordeão improvisa uma paisagem sonora, o poeta recita o poema recém-criado, fundindo todos os elementos deste ritual irrepetível num todo orgânico.
Música, sombras, poesia e movimento assumem um significado único para cada espectador. No final, este recebe uma cópia impressa do poema e parte com uma experiência íntima, poética e profundamente pessoal — difícil de traduzir em palavras e capaz de despertar curiosidade nos outros.
O espetáculo decorre em sessões contínuas durante várias horas, com cada sessão a ter a duração aproximada de 8 a 10 minutos. O público forma fila, assina uma lista ou chega ao local como se fosse a uma consulta médica.
Como surgiu a criação desta peça?
A ideia surgiu no início de 2014 com o objetivo de criar uma performance intimista que, por um lado, seguisse a tradição do lambe-lambe (um breve espetáculo de marionetas em miniatura dentro de uma caixa), que eu já tinha experimentado anos antes no meu espetáculo Mafia — embora, desta vez, levando-o para fora da caixa e eliminando a abertura de observação. Por outro lado, queria brincar com o conhecimento que tinha adquirido em 2007 em workshops de tarot e psicomagia em Paris com Paulina Doniz e Alejandro Jodorowsky, acrescentando uma camada de “performance” e criando uma versão muito pessoal e dessacralizada de uma leitura de cartas.
No entanto, o verdadeiro catalisador foi um workshop do grande marionetista e escritor Toni Rumbau, sobre como dar vida a objetos através da luz, a poderosa ligação que estes mantêm com as palavras que os definem e os significados ocultos enterrados no nosso inconsciente.

Talvez seja a fusão destas três experiências — lambe-lambe, tarot e a relação entre objetos e palavras — que forma a base desta experiência frágil. A influência dos jogos situacionistas, surrealistas e dadaístas também é palpável neste ritual poético.
O que te traz a arte “um para um” enquanto artista?
No meu trabalho, combino performances de médio porte com formatos íntimos. Sinto que, dessa forma, cada formato me ensina lições valiosas que posso aplicar ao outro.
O encontro cara a cara, nesse caso, dá-me a chance de olhar o espectador nos olhos e buscar essa conexão íntima que nos move a ambos. Permite-me escapar da mecanização e obriga-me a permanecer alerta, a ser generoso e a envolver os cinco sentidos na experiência.
Do início ao fim, mergulho numa espécie de transe. Entro no reino das sombras, onde o tempo desaparece e o cansaço se desvanece. A cada vez, emerge um novo poema e, nesse ato de entrega, compartilhamos a capacidade de nos surpreendermos. Os poemas continuam a melhorar, e nunca sei em qual esquina o momento sublime — quando tudo se encaixa — pode estar escondido.
É a sensação de que essa pessoa tinha que chegar exatamente neste lugar e momento para vivermos uma experiência extraordinária juntos.
Cada sessão é um jogo de tensões que me aproxima de uma dicotomia: quanto melhor conheço o indivíduo, melhor compreendo a humanidade.

Depois de todos esses anos, o Gabinete Poético continua a ser a peça que mais gosto de apresentar — sem dúvida, por causa de sua natureza profundamente íntima.
Quem gostarias que experienciasse o teu trabalho?
Embora seja direcionado para jovens e adultos, é acessível a todos (menores acompanhados). É participativo, mas não invasivo. Venha com ou sem medos, com ou sem expectativas.
Este ritual desenvolve uma análise à alma: abre uma porta para o inconsciente e permite saborear um fragmento do seu universo poético pessoal.
Nestes tempos, precisamos de momentos reais que deixem marcas, que quebrem a monotonia e despertem emoções que, por vezes, estão adormecidas.
Uma saudação tua, enquanto artista, aos visitantes do festival
Queridos exploradores do extraordinário!
É uma honra participar deste festival tão especial. Portugal transborda poesia e magia, e estou ansioso para colocar esses ingredientes a serviço do nosso ritual poético.
Um momento para encontrar o indivíduo, compreender o todo e devolver—como um espelho—o reflexo mais belo que cada um de vocês carrega dentro de si.
Façam o favor de se sentar: o Gabinete Poético tem um encontro marcado com o seu nome.


